O Rei Ricardo III, de William Shakespeare, é uma das peças históricas do dramaturgo inglês que com maior força explorou a psicologia do poder e da ambição. Escrita entre 1592 e 1593, a peça baseia-se na história do rei Ricardo III de Inglaterra — o último rei da casa de Iorque, morto na batalha de Bosworth em 1485 —, tal como a tradição histórica e literária Tudor a havia construído: um monarca deforme, cruel e manipulador, cujas maquinações o levam ao trono mas cuja natureza destruidora o condena à queda.
Ricardo III é uma das mais complexas e fascinantes personagens da dramaturgia shakespeariana: a sua vilania é apresentada com uma consciência e uma ironia que o tornam paradoxalmente cativante para o espectador. A peça inscreve, como o prefácio incluído na edição assinala, a ascensão e queda de Ricardo num padrão trágico de dimensão moral e política — a demonstração de que o poder conquistado através da traição e do crime não pode ser sustentado e que a violência exercida para aceder ao trono acaba por voltar-se contra quem a usou. A linguagem é de rara intensidade poética e dramática.